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MUMEMO, HISTÓRIA DUM BAIRRO
Imagina...
       
           
     
Imagina um bairro pobre, todo ele inundado por causa de chuvas torrenciais que caíam sem prévio aviso. Imagina tudo o que as águas podem destruir correndo pelas ruas deste bairro sem esgotos nem drenagem. Imagina um grupo de famílias fugindo pelas ruas e procurando refúgio algures sem ter podido levar consigo mais nada que o que leva vestido.
   
                       
 
Imagina uma mãe angustiada, carregando o seu filho nas costas e levando na sua cabeça um pequeno fardo com a pouca roupa que conseguiu resgatar da força das águas. Imagina um centro de acomodação para deslocados, que se vai enchendo de famílias e de pessoas que lamentam a sua situação: perderam tudo quanto tinham. Imagina o desespero deles ao se verem sem recursos, vivendo num salão de acolhida ou debaixo de tendas improvisadas com plásticos, sem capacidade para poderem pensar no amanhã e debaixo duma chuva incessante, que não para de cair. Imagina estas imagens. Elas foram uma dura realidade no bairro de Chamanculo, na cidade do Maputo, em Moçambique durante as cheias do ano 2000.


   
 
E agora, imagina um terreno arenoso no meio do campo. Imagina não um tijolo se não milhares de tijolos e blocos, bem dispostos sobre a areia, dando vida a um novo bairro com 500 habitações, onde a gente vive feliz mesmo que meio de preocupações. Imagina esse bairro com um centro de saúde com maternidade e uma escola onde as crianças prestam uma imagem de cor e alegria. Imagina esse bairro com uma creche, um mercado, um posto policial, um centro de formação profissional, um viveiro para plantas, fontes de água suficientes para todos os seus habitantes e uma rede de energia eléctrica. Imagina todos esses serviços postos à disposição dos habitantes de outros bairros vizinhos.

E imagina que é possível seguir imaginando, porque esse bairro existe e surgiu do nada. Surgiu da necessidade de uns, da vontade de muitos e do trabalho de todos quantos acreditaram que era possível sonhar. Queremos fazer uma menção especial às Irmãs Franciscanas Hospitaleiras do Imaculado Coração, a Caritas Moçambicana, a Caritas Espanhola e a Caritas Italiana que acreditaram no projecto e ajudaram para que ele fosse possível.

Falamos do bairro 4 de Outubro (mais conhecido por Mumemo), situado a trinta quilómetros da cidade do Maputo, no Distrito de Marracuene, e onde estão vivendo, desde ha um ano, 500 famílias que tiveram de ser retiradas do bairro de Chamanculo durante as cheias do ano 2000.

   
Aida conta a sua história

Aida é uma das muitas pessoas que tiveram que abandonar as suas casas no bairro de Chamanculo por causa das inundações de Fevereiro do ano 2000. Já vive em Mumemo desde há dois anos, foi das primeiras moradoras deste bairro. Antes das inundações, vivia com toda a sua família - 4 irmãos e os pais - numa modesta casa de alvenaria, que ficou completamente destruída pela intensidade das chuvas. La, no Chamanculo, ia à escola, passeava com as amigas e com o seu namorado, ajudava nas tarefas da casa fazendo uma vida “normal”. Hoje, segue estudando, continua o seu namoro e, recebe as visitas dos seus pais e amigas na sua casa de Mumemo.

A única diferença é que a Aida, agora, vive a 30 Km. de Maputo, no novo bairro onde moram outras 500 famílias saídas, como ela, de Chamanculo. Em volta da sua casa tem um talhão, todo seu, onde pode plantar algumas árvores ou criar galinhas e, talvez no futuro, já com os seus próprios recursos, ampliar a sua casa. O bairro tem a vantagem de possuir um posto de saúde com maternidade, uma escola primária completa, uma creche e um mercado, assim sem necessidade de pegar no “chapa”, os habitantes do bairro podem dar à luz, curar a sua malária e fazer as compras. Ir até a cidade já não é problema, a estrada, em terra batida, permite ter uma linha de “chapas” que de forma regular fazem o percurso do bairro até a cidade do Maputo,

As cheias em Chamanculo


Uma forte chuva começou a cair sobre o bairro a partir do dia 6 de Fevereiro do 2000. Em Dezembro e Janeiro as chuvas já tinham sido abundantes e os níveis freáticos estavam muito altos. A família da Aida esperou o melhor tempo, o bairro estava edificado sobre um antigo pântano e sempre que chovia com intensidade ficava intransitável, porém desta vez era diferente, depois da primeira semana de chuvas a água já chegava a altura das janelas. Não restava outra alternativa senão salvar os poucos bens que ainda estavam em condições e abandonar a casa. Foram viver na casa dum tio, morador noutro bairro de Maputo menos afectado pelas inundações.

Durante os primeiros dias da emergência, as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras acolheram quantas famílias foi possível e as instalaram no seu convento. Deram-lhes comida, roupa para se abrigarem e assistência médica. Dias depois, as Irmãs decidiram contactar com a comissão de moradores do bairro para trabalharem juntos na reconstrução do bairro e no reassentamento das famílias deslocadas. A população se organizou, abriram valas para a drenagem das águas das chuvas, alugaram camiões para aterrarem as estradas do bairro, porém as águas continuavam a brotar do solo. A falta de planificação na ocupação dos terrenos do bairro impedia uma drenagem em condições, foi assim como surgiu a ideia de transferir parte dos moradores do bairro para outra zona. Nasceu o Projecto: “Reconstrução do bairro de Chamanculo e nascimento dum novo bairro em Mumemo, Distrito de Marracuene”. O Projecto recebeu, desde o início, o apoio da Caritas Espanhola e Portuguesa, outros financiadores foram-se incorporando ao projecto.

Durante todo este tempo, Aida ia ao bairro procurando colocar o seu nome na lista dos beneficiários. Um mês depois a comissão dos moradores inscrevia o seu nome nas listas.

A família se divide


Logo após as inundações, a família da Aida teve que tomar uma decisão: tinham de se separar. Os pais foram para o bairro do Zimpeto, onde tinham uma pequena machamba, os irmãos mais novos ficaram com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, a Aida junto com o seu irmão mais velho e a cunhada foram para Mumemo.

Durante os primeiros meses viveram numa tenda de campanha. Nas manhãs Aida frequentava as aulas em Maputo e às tardes trabalhava limpando os terrenos onde se iria levantar o novo bairro de Mumemo.

Um dia na companhia da Aida


Aida vive numa das quinhentas casas que já estão levantadas no bairro de Mumemo. Comparte a casa com o seu irmão mais velho e a cunhada. No quintal tem uma pequena horta e a cozinha. Uma das coisas que torna mais feliz a Aida é ter uma “latrina” apenas para a sua família, no seu antigo bairro de Chamanculo tinham de partilhar a “latrina” com outras famílias. Quando mudou para Mumemo, Aida teve de mudar de Escola, agora estuda a nona classe numa escola em Marracuene.

Aida acorda às seis da manhã, para ter tempo suficiente de chegar à Escola às sete horas, volta a casa às três da tarde e prepara a comida. Depois de comer descansa um pouco, realiza os trabalhos da casa, toma banho e dedica tempo aos seus deveres escolares. Perto das oito da noite, jantam, conversam com os vizinhos e vai dormir. Aos fins de semana vai ao Maputo visitar os irmãos mais novos, que ficaram com as Irmãs Franciscanas, e aproveita para visitar o seu namorado. Pensa continuar a estudar e ser enfermeira. Quando casar quer continuar a viver em Mumemo, “aqui o ambiente é mais limpo e não temos as preocupações que tínhamos quando vivíamos em Chamanculo”.

Assim é a vida de uma jovem no bairro de Mumemo.



 

Título do Projecto: “Reassentamento / deslocados de Chamanculo C”
Código: PS – M4 – 040
Local: Mumemo
Distrito: Marracuene
Província: Maputo
Responsável da Implementação: Irmãs Franciscanas Hospitaleiras
Seguimento: Caritas Diocesana do Maputo
Orçamento: USD 922.446,00
Financiamento: Caritas Espanhola USD 609.505,00
Caritas Italiana USD 271.242,00
Padres Jesuítas USD 41.666,00


Gostaria de conhecer melhor o projecto ou colaborar na 2ª fase do mesmo?


Contactar: Caritas Moçambicana
Rua da Resistência nº 1175 Maputo
Telefone 419933/4
Fax 419578
e-mail: caritmsg@tvcabo.co.mz